Esqueça minhas boas ações, minha disposição para querer sempre ajudar os amigos e até, em algumas vezes, pessoas que nem se quer sei o nome. Aliais, entenda "pessoas que nem se quer o nome" como aquelas que não conheço, porque não saber o nome é normal para mim... Tire meu humor quase inabalável, minhas teorias e soluções para quase tudo, minha paixão pelo ser humano e pronto!
Como assim pronto? Prontos oras! Tirando tudo isso, me resta, dentre outras coisas, meu humor negro escondido. Seja por rir de situações inesperadas, gargalhar nas piores ainda e morrer de rir nas topadas do dia a dia, não presto para ser Deus.
Imagina, por exemplo, aquele rapaz cético, totalmente ateu, que passou sua vida a tentar convencer ao mundo que eu não existo (no caso eu no papel de Deus). O que fazer? Deixo que passe na cabeça dele que seria bom guardar um dinheirinho, desses para viajar pra onde quer que seja. Espero o dito cujo acumular um bom pé de meia e lá de novo modifico minhas leis para influenciá-lo que seria uma boa viajar para a África. Sabe como é, estar em contato com a natureza, libertar o animal irracional que existe em todos nós. E então ele, todo contente por ter "decidido" por isso, compra a passagem e em pouco tempo já está por lá.
Vendo o povo local, faço com que um aventureiro lhe conte sobre suas caças e passeio pela savana, em como é bom estar em contato com os animais e bla bla bla. Pronto, no outro dia já o vemos andando, sem um guia, sem mapa e ainda feliz. Deixo que ele aproveite por umas 2, 3 horas? Acho que ta de bom tamanho... Melhor ainda que ele se canse... Agora façamos aquele leãozinho quer nada se levantar, sabe? Dá-lhe um peteleco no estomago e pronto, sente-se com fome. Procura, procura, procura e encontra nosso personagem feliz, caminhando desavisado.
Ok, não sou tão ruim assim... Faço-o perceber o animal enquanto ainda está a certa distância. Ele corre. Dou-lhe uma esperança ao fazê-lo lembrar que trouxe uma arma de caça, ele aponta, atira... Opa, engasgou! Corre, corre como se o mundo fosse acabar hoje. E o leão vai atrás, com nenhuma pressa, só para prolongar esse momento. Mais como toda felicidade um dia tem de acabar, ele chega cada vez mais perto e o rapaz, olhando para trás, vê que o animal esta muito perto. Meu querido felino pula na direção do pobre coitado no exato momento que ele exclama: Meu Deus!
Pronto, paro o tempo, com direito a ter aquelas rotações de cenário cinematográficas. Deixo que ele se livre da prisão do tempo e possa conversar comigo.
_ Mas quem diria, logo você que sempre tentou convencer a todos e ao mundo que eu não existo, exclama por mim em momento assim.
_ Meu Deus, me ajude!
_ Acha que devo?
_ Sei que fui infiel, que sempre acreditei na sua ausência, que poderia progredir sem o senhor e também sei que talvez seja tarde para me desculpar, mas pelo menos me conceda um desejo!
_ Pois que seja um justo então, pois hoje meu humor tá que tá.
_ Em vez de esperar que eu me torne cristão, faça com o leão seja. Tudo bem?
_ Negócio fechado...
E o tempo retorna ao normal, o leão, ainda no ar, termina seu pulo agarrando as pernas do ateu. O animal então se senta e fica olhando para sua vítima. O rapaz, bem em sua frente, sente-se aliviado pela ação do animal e suspira.
_ Estou salvo!
O leão então junta suas patas dianteiras, olha para o céu e pronuncia:
_ Meu Deus, obrigado por mais essa refeição...
Tá comprovado... Não tenho pinta para ser Deus.
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